sexta-feira, 29 de abril de 2016

O mar e os navios



















"Absorto, ficava ali, horas seguidas, a observá-lo de cima, vendo-o agitar-se como um cavalo a sacudir as crinas, um prisioneiro a tentar libertar-se das algemas, um corpo a debater-se de alto a baixo contra uma sezão febril. Formavam-se grandes ondas azuis lá muito ao largo, sobre a pele encrespada das águas que se deixavam embalar pelas convulsões do mar. Vinham por ali fora em rolos sucessivos, descendo ao encontro da penedia solta da costa. Despenhavam-se logo depois contra ela, não já azuis mas brancas, como se feridas e rasgadas pelas rochas. E cobriam as pedras e o pouco areal que ainda ali restava do muito que as marés traziam de volta. Esse grande ser vivo do mundo, o maior de quantos habitam à superfície da terra, tinha aliás as cores que ele preferia: o dorso azul, a brancura do sal e da espuma quando o picavam os ventos ciclónicos, e sempre ele que se afiava por entre as fragas para invadir a praia. Além disso, havia os ruídos em baque da rebentação, a música cavada da água a erguer-se sobre si, a misturar-se com os sons da nortada que açoitava as árvores e a erva alta dos campos. E também as casas e as pessoas que corriam a saltitar para irem abrigar-se da tempestade. 

E ei-lo outra vez ali, o mar. Tão perto, tão alegre, vivo e canino a saudá-lo abanando a cauda e as orelhas, latindo-lhe não propriamente ao ouvido, mas na pele toda, e entrando-lhe no corpo, das unhas para os dedos, destes para as mãos e para as veias. O mar entrava e subia por ele acima até chegar ao interior da sua cabeça e espraiar-se em onda dentro dela. Nessa altura, compreendia que um homem pode perfeitamente trazer um mar em si, dentro da cabeça, ou nas veias e nas artérias, em todos os poros da pele, infiltrado nos ossos e nos mais obscuros labirintos do corpo. A isso chamava ele plenitude, a vida inteira dentro de si, o sal a pegar-se-lhe à pele, o corpo a sentir renascerem as velhas e esquecidas alegrias do sangue que nele girava, do sexo na sua função de prazer, das guelras abertas, dos pulmões a dilatarem-se, como se estivesse em expansão de dentro para fora de si.

Não pode haver nada mais belo na vida do que abordar as cidades por via marítima. Os portos são braços abertos, redutos planos e recatados, com umas águas inofensivas e gratificantes, que logo nos fazem esquecer o tormento do enjoo, deixado ao largo. Entramos por ali dentro devagar, num movimento irreal de aproximação recíproca que vai pondo nítidas, minuto a minuto, primeiro as formas indistintas da paisagem, depois as cores mais fortes, por último o desenho em miniatura das ruas e das casas que se aclaram e acercam de nós, e como que invadem os nossos olhos por dentro. Vemos, só então, o que já sabíamos: o género humano somos nós e os outros, iguais em tudo nesse lado do mundo e do mar, em qualquer terra a que aportemos. Sabê-lo à chegada, num cais de desembarque, torna-nos mais urbanos, mais transparentes, eternos como o sal dos deuses, sendo nós tanto ou mais efémeros do que a contingência da nossa condição universal. 

Os naturais desses confins do mar esperam a acostagem dos navios à doca e o desembarque dos passageiros para nos lerem as linhas da mão e revelarem a nossa sina. É bom passarmos, pelo menos algumas vezes na nossa vida, pela condição de estrangeiros. Sabemos então que possuímos uma alma só nossa, comemos do que a terra nos dá e também dependemos dos outros quando entramos na sua morada. Eu, a bem dizer, de estrangeiro tenho praticamente tudo aquilo de que preciso. O sotaque carregado dos aprendizes e tradutores de línguas alheias, a curiosidade, a estranheza e o prazer deslumbrado com o sabor das comidas dos outros, os gestos frugais com que imito usos e costumes dos que esperam e se propõem receber-me excelentemente, com um orgulho mal disfarçado, nas suas casas de família. 

Nunca perco uma oportunidade para lhes dar a ler a minha sina. Estendo-lhes ambas as palmas das mãos, fico logo a saber se vou ter saúde ou contrair alguma doença; se o destino me prepara mais alegrias do que amarguras no meu próximo futuro, e quanto tempo está previsto eu viver. Adoro ouvi-los dizer que me está reservada para breve uma linda história de amor, com a mulher mais bela do mundo; que terei uma vida plana, longa de oitenta e oito anos batidos, sem doenças nem dores, sem azares nem desgostos de maior; e que, no regresso de uma destas minhas contínuas viagens pelas cidades marítimas dos barcos, feliz como nunca fui, herdarei uma fortuna de um tio esquecido por toda a família; um tio velho, com a idade de um século, provavelmente já meio tonto das ideias, tio esse que, havia muitos e muitos anos, emigrara para o Japão, o Egipto, a Venezuela, a França, a América, vá-se lá saber mais para onde..."

João de Melo, in Os Navios da Noite, Lisboa, Dom Quixote, 2016

domingo, 20 de março de 2016

O mar de Ulisses















Em 2016, o ICIA andará em navegação de cabotagem cultural e literária entre as margens mediterrânicas.  Respondendo ao apelo das águas  do Mediterrâneo, nestes tempos, bastante agitadas, reeditamos aqui, como mote para essa navegação, um texto de Eduardo Lourenço publicado na Revista Atlântica nº3.

"Quando se instalaram nas suas margens, os gregos inventaram-se deuses. É um acontecimento sem precedentes na história conhecida da humanidade. Ainda não terminou. Hollywood recicla nos seus ecrãs as aventuras da raça naturalmente celeste. De todas, a única história infinita é a de Ulisses. Por sua causa, o Mediterrâneo tornou-se um mar diferente, o único que é finito e sem fim. Ao contrário dos argonautas, Ulisses não busca nenhum velo de ouro. Navega apenas para regressar a um porto que conhece e o conhece. O que não pode encontrar sem descobrir, errando entre monstros e sereias, a forma do seu rosto. Entre o mundo exangue dos mortos e o paraíso do sonho do esquecimento deve encontrar a passagem estreita para aquela ilha onde será de novo o rei de si mesmo. Não apenas um herói que os deuses perdoaram, mas um deus, um homem cansado pela sua audácia olhando o sol de frente sem morrer. Durante milhares de anos, o Mediterrâneo foi o palco da ópera humana que por comodidade chama-mos história. Não se exclui que o não continue sendo. Todos os heróis do Ocidente cruzaram as suas margens tão familiares como fantasmas desfeitos na sua luz excessiva, agora de tão branca. Heróis a sério e da imaginação, uns alimentando a outra. Nenhum iguala Ulisses, o herói do mistério claro como um templo grego devorado pela luz onde as suas colunas se recortam. O que os outros buscam, ouro, glória, inteligência, é o que ele deve perder para ser quem é: pura errância no mar mais conhecido e, de súbito, oculto, enigmático na sua circularidade divina de labirinto sem saída. O que Ulisses inventou foi a primeira viagem no tempo onde ninguém viaja para sítio algum que não seja um regresso. Assumido e aceite como um nascimento. "

Eduardo Lourenço, "O mar de Ulisses", in Revista Atlântica de Cultura Ibero.America, nº 3, Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, Portimão, 2016. 

domingo, 13 de março de 2016

Entre dois mares


















Aprovado o Plano de Atividades para 2016, o ICIA prosseguirá uma programação conforme à ideia de um projeto que mediatiza a comunicação no seio da nossa comunidade, em coerência com a ideia de uma cidade entre dois mares: o Atlântico que continuaremos a “atravessar” no rasto da “vaga gente” lusitana que demandou as Américas, renovando, no âmbito da cooperação com o Centro de História da Universidade de Lisboa, o projeto de investigação em curso, doravante, denominado Travessias; e os Mediterrâneos, o místico-lírico dos poetas que o celebraram, o nostálgico de Manuel Teixeira Gomes através do seu nomadismo e crónicas de cabotagem cultural entre cidades mediterrânicas e o doloroso exposto a Sul às guerras e aos dramas da corrente migratória sem fim que elas provocam e a Norte à crise económica que aviva as tensões e desata o medo e a xenofobia, mas que, ainda, pode ser espaço de novas solidariedades

1. Travessias [Estudos]
A associada Maria da Graça Mateus Ventura continuará a desenvolver o seu trabalho científico, no âmbito da História da Ibero-América, como investigadora integrada no Centro de História da Universidade de Lisboa e a colaborar, na qualidade de avaliadora externa, com as seguintes revistas especializadas: Anais de História de Além-Mar (Centro de Estudos de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa); Revista Complutense de História da América (Universidade Complutense de Madrid); Revista História para todos (Universidade de Tucumán, Argentina).

Ainda no âmbito da História da Ibero-americana, a associada Maria da Graça Mateus Ventura prosseguirá com o seu projecto de investigação sobre os Gramaxo, uma portimonense Cartagena das Índias. Cristãos-novos, os seus negócios desenvolviam-se entre Lisboa, Sevilha, Madrid, Cabo Verde e Cartagena das Índias, entre finais do séc. XVI e primeiras décadas do século XVII. Tratantes de negros, de prata peruana e credores dos Filipes, foram escapando às malhas da Inquisição e sobreviveram à Restauração da Independência de Portugal. Jorge Fernandes Gramaxo era natural de Portimão e fixou-se em Cartagena das Índias onde enriqueceu e se tornou o homem mais influente e poderoso da região. Nos negócios sucedeu-lhe seu sobrinho António Nunes Gramaxo cuja influência na Corte espanhola lhe permitiu escapar das malhas da Inquisição e do desconforto da Restauração.

2. Naufrágio com espectador [Colóquio sobre o Mediterrâneo atual]
Existe o Mediterrâneo estudado magistralmente por Braudel enquanto espaço histórico-cultural. E existe o Mediterrâneo celebrado por poetas como Séferis, Ritsos ou Chédid enquanto espaço místico-lírico. O Mediterrâneo que suscita mitos, sonhos, utopias, lugares-comuns. Nostalgias. Contudo, a sua realidade actual não é tanto a sua herança cultural, mas sim o agravamento das desigualdades entre as suas margens, as dramáticas correntes migratórias, tensões, reações xenófobas, radicalismos. 

Cruzamento de povos, de culturas, de religiões, de economias, o “mare nostrum” já é não o mar que une mas o mar que separa, concentrando nas suas águas dolorosas todas as ameaças, desordens e dramas do mundo. Margens que se olham com desconfiança e vigilância. Com o medo que leva a instalar campos de refugiados e a erguer muros. É sobre esse Mediterrâneo atual exposto a sul às guerras e aos dramas da corrente migratória sem fim que elas provocam e a norte à crise económica que aviva as tensões e desata o medo e a xenofobia, mas que, também, pode ser espaço de novas solidariedades que, sobretudo, trataremos neste colóquio. Concretizar-se-á, assim, de forma renovada a ideia da ação “O espaço geocultural do Mediterrâneo” que fora adiada em 2011.

3. Os passos em volta [Comunidade de leitores] 
Há cidades cuja geografia mais íntima a literatura nos convida a descobrir como viajantes imaginários sem sairmos de casa. Depois de ano passado termos lido, à volta da mesa, as impressões que Manuel Teixeira Gomes nos enviou desde as cidades mediterrânicas por onde deambulou, este ano faremos escala nas mesmas cidades para, uma vez mais, guiados pelo seu nomadismo, revisitarmos como viajantes sedentários as suas paragens levantinas e saborearmos os seus sabores principais.

Também como viajantes sedentários, à volta de uma mesa, responderemos ao apelo nómada de outras cidades literárias, guiados pelos escritores que as representaram ficcionalmente. A Comunidade de Leitores é, ainda, um espaço de encontros com escritores, apresentações e lançamentos de livros, celebrações literárias como o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial do Livro, etc.

4. O périplo de Manuel Teixeira Gomes [Conferência]
Nascido em Portimão, há 156 anos, numa casa com janela para o rio Arade, Manuel Teixeira Gomes cedo apreendeu a beleza do azul do mar do Algarve. O movimento dos veleiros e dos vapores que demandavam o porto era um permanente desafio à viagem que o levaria ora a percorrer as cidades mercantis do norte da Europa ora o Mediterrâneo, de Marrocos à Turquia.

Segundo Pedrag Matvejevitch (Breviário Mediterrânico, 2009), os Antigos consideravam a oliveira como símbolo e como marca territorial do Mediterrâneo. Para Teixeira Gomes, um homem do Sul, foi a figueira que o levou em viagens de negócios aos países frios e sombrios do Norte e que lhe deu recursos para desfiar em viagens de ócio o rosário de cidades do Sul luminoso: Andaluzia, Catalunha, Itália, Grécia, Norte de África, Ásia Menor. Como Nietzsche professava uma espécie de “fé no Sul”, preferindo a margem magrebina à europeia. Lugares de mistura onde conviviam línguas, costumes e crenças. Mediterrâneos. Pequenos mundos precários a que a História lentamente deu forma antes de os demolir e fechar o mar que já foi comum e que, hoje, ao invés de Nietzsche e de Manuel Teixeira Gomes, nos faz perder tanto “a fé no Sul” como no Norte.

Nesta conferência a duas vozes, Guilherme de Oliveira Martina (Centro Nacional de Cultura) e (Maria da Graça Mateus Ventura), falarão sobre a mensagem de diálogo euro-mediterrânico que o viajante humanista Manuel Teixeira Gomes nos legou e que na reunião anual da Rede Portuguesa da Fundação Anna Lindh adotaremos como tributo à sua memória.

5. O mar de Ulisses [Performance poético-musical]
O Mediterrâneo é menos o mar que as suas margens. As margens que se estendem para o interior até onde cresce a oliveira e que num “barco embriagado” e em viagem de cabotagem poética nos propomos aportar para escutar as vozes ora semelhantes ora contraditórias dos poetas que professam uma “fé no Sul”, fazendo da sua poesia um canto de amor - mas de amantes experientes que sabem que o “Mediterrâneo não é apenas uma geografia”, mas também uma ferida aberta na alma que não será jamais fechada, jamais esquecida, mas que pode ser superada pelas palavras, para que o Mediterrâneo volte a ser o mar que está no meio das terras.

Propomos, para isso, a criação e apresentação de um recital (ou de uma performance poética) que nos guie ao encontro dos poetas do Mediterrâneo para, apesar dos tumultos que hoje agitam as suas águas, reencontrarmos nas suas margens poéticas a esperança de um “mar comum”.

6. Reunião da Rede Portuguesa da Fundação Anna Lindh [Encontro nacional]
A Fundação Euro-Mediterrânica Anna Lindh (FAL) integra 42 países da região e tem como missão promover o diálogo intercultural e o conhecimento mútuo entre pessoas e sociedades das margens sul e norte do Mediterrâneo. A Rede Portuguesa foi formada em 2005 em simultâneo com a criação da própria Fundação Anna Lindh, sendo composta, atualmente, por 40 membros das mais diversas áreas de atuação na vida cultural e social do país, entre os quais o ICIA.

Em colaboração com o Centro Nacional de Cultura, organização que coordena a Rede Portuguesa, o ICIA organizará, em Portimão, a reunião anual, este ano inspirada nos itinerários mediterrânicos de Manuel Teixeira Gomes, onde, entre outros temas, se discutirá formas e processos de organização interna no sentido de consolidar a noção de “rede” entre os seus membros, procurando novas formas de intervenção para disseminar os valores e objetivos FAL.

7. Fórum Euro-Mediterrânico da Fundação Anna Lindh [Encontro internacional]
O ICIA apresentará à Fundação Anna Lindh um projeto visando a participação na 3ª edição do Fórum Euro-Mediterrâneo sobre o diálogo intercultural a realizar em La Valeta, Malta, em 24 e 25 de Outubro 2016. A edição de 2016 deste Fórum reunirá representantes da sociedade civil, associações de jovens, instituições regionais, imprensa, doadores e fundações, com o objetivo de partilhar boas práticas, promover parcerias e defender políticas e medidas operacionais para um novo horizonte de cooperação no Mediterrâneo, baseado num conjunto de valores comuns em que o diálogo intercultural volte a estar no centro da cooperação, respondendo assim aos grandes desafios socioculturais da região. Os tópicos da discussão para os participantes centram-se no diálogo intercultural como ferramenta essencial ao entendimento entre culturas, no papel da mulher no diálogo, um futuro mais sustentável com um aumento de oportunidades para os jovens e maior interação e partilha na região euro-mediterrânica.

A expectativa é que a participação neste Fórum possa, também, ser uma oportunidade para apresentar e discutir ideias de cooperação com outras ONGs, abrindo horizontes para a renovação de projetos e ações do ICIA relacionados com o Mediterrâneo.

8. ICIAonline [Comunicação]
Em 2016, o ICIA continuará a manter a sua página de Facebook permanentemente atualizada, de modo a assegurar  a comunicação com os associados e público em geral.
Para além deste recurso de comunicação, o ICIA continuará a editar uma Newsletter informando sobre  a programação de atividades. A partir do blogue existente, que reúne toda a informação sobre o ICIA, em 2016, procurar-se-á criar a nova página web oficial.





terça-feira, 8 de março de 2016

Breviário mediterrânico


No próximo sábado, 12 de Março, pelas 15h30, os associados do ICIA sentam-se na sua sede para discutir e aprovar o Relatório de Atividades e Contas de 2015 e Plano de Atividades de 2016. E porque, muito do que lá se vai conversar terá a ver com o Mediterrâneo (não fosse Portimão uma terra entre dois mares!), lá mais para a hora do jantar (diagamos, pelas 19h30) sentar-nos-emos na Taberna Porta Velha, com as pizzas do Luis na mesa e o "Breviário Mediterrânico" de Pedrag Matvejevitch na mão para tertuliar sobre esse "mare nostrum" que é não é apenas uma geografia" para aportarmos às suas margens literárias. E, claro, não ignoraremos os tumultos e os dramas que agitam as suas águas!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sagres


Assinalando a integração, a partir de hoje, do Promontório de Sagres na lista da Marca de Património Europeu, partilhamos um texto de Lídia Jorge publicado no nº 1 da Revista Atlântica de Cultura Ibero-americana (2004).

Sagres, Lídia Jorge

"Por que razão evitar a palavra outrora? _Outrora não havia o ruído das estradas, os céus só de muito longe a longe eram riscados pelas rotas dos aviões, e as partidas eram feitas em grandes navios, com lenços brancos a acenar e longos mugidos que amarravam para sempre os corações amantes às pedras dos cais. Os soutiens das mulheres eram agudos como se fossem funis, e os sapatos dos homens rangiam à medida das suas passadas como se fossem de tábua. A música que se escutava era ainda predominantemente executada em presença, os lábios e os dedos próximos, a vibrarem contra os instrumentos, objectos então familiares nas nossas vidas. Hotel era ainda uma realidade mágica que só tinha consistência nos filmes americanos, e o telefone, um objecto de luxo que distinguia os senhores das vilas. Transpor distâncias geográficas, breves que fossem, era ainda uma tarefa assinalável. _ Muita coisa, pouca coisa? Só o suficiente para dizer que, se penso em Sagres, é em Sagres desse outrora que penso.

Regressando lá, a esse outro tempo, em que se ouvia o pêndulo dos relógios das torres marcarem as horas íntimas de cada um, Sagres de outrora não se me afigura um cabo nem um promontório, mas apenas uma luzinha brilhando no escuro da penumbra imensa em que se transformou o passado, a luz intermitente dum farol que a espaços riscava a noite, quando a noite ainda podia ser escura. Porque de dia a terra esmorecia desse lado, as formas das casas iam-se perdendo ao longe, confundindo-se com a rala vegetação da paisagem, e quando a lonjura quebrava a linha perceptível e se transformava ela mesma no próprio fio do horizonte, aí a distância tornava-se lilás, e desaparecia de encontro ao mar azul que por sua vez também desaparecia no céu anilado. Sagres encontrava-se lá, um espaço imerso nesse lugar vago, onde a Terra acabava diante da nossa vista e desaparecia como uma espécie de tira de fumo. Quando o Outono chegava, a distância transformava-se em alguma coisa mais palpável, passava a ser uma proveniência, uma direcção precisa, um ponto cardeal de onde sopravam os ventos que fustigavam as árvores. Era o local de onde provinham as chuvas arrebatadas de Novembro, as que entravam pela chaminé e aspergiam a toalha da mesa de gotas e salpicos, atingiam as nossas camas duma humidade ainda quente. Mas Sagres, o verdadeiro Sagres de outrora, era muito mais do que uma barra esfumada ou as intempéries que de lá provinham.

Sagres era uma pátria nocturna, uma espécie de olho vigilante na noite que vinha ter connosco à varanda, quando subir as escadas durante a noite, para ver as estrelas ou distinguir o rebordo das nuvens, se transformava numa aventura nas nossas parcas vidas. Também a Geografia ainda era uma abstracção, mas o que a nossa mãe contava é que se caminhássemos por cima do mar, a partir daquela luz, e seguíssemos sempre em frente, se nos imaginássemos permanentemente a andar por cima das ondas, apesar das nossas pernas curtas, dentro de dois, três anos, chegaríamos à América do Norte. Se caminhássemos para sul iríamos ter a África, se nos dirigíssemos para Sudoeste - e ela indicava essa direcção imprecisa com o seu braço, que nos parecia gigante – então chegaríamos aos países da América do Sul. Demoraríamos muito, sofreríamos muito, no entanto seria bom, pois se lá chegássemos, em todos esses lugares, encontraríamos parentes.

É possível que essas cenas de explicação de geografia humana familiar acontecessem também de dia, mas a imagem desse Sagres de outrora, sempre a associo às explicações da noite. A nossa varanda abria-se exactamente a meio do Algarve. Mais próximo brilhava o farol do Cabo Carvoeiro, depois piscava aquele frouxo olho de Sagres, tremido, longínquo. Quanto mais tremido e mais distante, mais doloroso, mais potente, como se o seu braço de luz fizesse a ponte entre nós que havíamos ficado e todos esses que haviam partido. Não o nego, aquela luz nas noites de outrora era um lugar que separava e unia a nossa gente. Gente sem passado nem futuros assinaláveis, gente que era apenas um só corpo desunido, disperso pelo mundo. A verdade é que ninguém dali havia partido, àquele lugar ninguém iria chegar, e no entanto, no relato escuro da varanda, era como se tudo ali tivesse acontecido, como se Lisboa, seus cais e aeroporto, onde as partidas reais se davam, não existissem em lugar nenhum. A partir da nossa varanda, aquele lugar sudoeste parecia ser o único ponto cardeal das nossas vidas. Mas, logo na primeira curva da infância, viria a História e viriam os mitos.

Primeiro, a História. As coisas passaram-se assim _ A professora do Liceu mandou apagar da cabeça todas as histórias de luzes e varandas, para nos contar como certo dia, quinhentos anos antes, um príncipe português, casto e visionário, tinha resolvido abandonar a corte, armado de seus cavalos e escudeiros, para vir assentar casa e villa no Sul de Portugal, e aqui dar início aos Descobrimentos Marítimos. A professora parecia estar enamorada desse príncipe. Segundo a sua narrativa de fábula, o príncipe havia descoberto, ao atravessar o Algarve, em direcção do Norte de África, que o Promontório de Sagres, muito mais do que um rochedo, era uma grande mão aberta cujo dedo indicador estendido apontava para o futuro do Mar. Em sua bata branca de oficial impecável, a professora falava da villa, do príncipe, dos sábios italianos que ali tinham chegado para falarem da rota das estrelas, dos engenhos, dos barcos e dos mapas da pequena Terra Cógnita da época, e a mão aberta do Promontório de Sagres, mais do que um local de partida era um local de chegada que em simultâneo ligava o seu rochedo ao extremo Sul de África, à Índia, à China e ao Japão, ao cabo Horn, como se toda essa façanha de séculos tivesse jorrado da testa do Príncipe, prodigiosamente, segundo a mesma lei de simplicidade que movia o ponteiro da professora por cima do planisfério. A História tinha então a forma duma mulher enamorada. Sob o impulso daquela professora em estado de paixão, desenhámos Infantes Dom Henrique sentados nos rochedos, caravelas no seus ombros e ao seu colo, fizemos prosa e versos, houve exposições e prémios. Aquela mulher tinha razão - Sagres, segundo a sua História, não tinha nada a haver com a tira lilás que se avistava da varanda, nem com a luz intermitente que apontava para a distância do mundo que nos era contemporâneo. - Mas como disse, ainda haveria os mitos.

Aliás, de modos diferentes, eles nunca tinham estado ausentes. Talvez uma parte do afecto seja mito, talvez toda a memória também o seja. O que sabemos nós da construção do pensamento? Mas Mitos mitos, aqueles que resumem os sentidos da existência com a síntese dum alfinete afiado, esses começariam a ficar cada vez mais explícitos. Afinal, por alguma razão superior, Sagres se situava em terras de Portugal. O assunto era tão sibilino quanto resultava claro. - Por alguma razão de ordem teleológica, tão estranha à vontade humana quanto a chuva ou o trovão, tinha havido Sagres para que Portugal pudesse ter enviado primeiro as caravelas, depois as fundas naus sem fundo, com a Cruz de Cristo arvorada nas velas e a doutrina cristã escrita nos livros. O Império de Cristo havia tido sua cabeça em Portugal. Todo o Portugal, ponta extrema da Europa, afinal não passava duma lança de Fé chamada Sagres. É preciso lembrar que nesse tempo as raparigas usavam véus para entrarem nos templos do Senhor, os cabelos das suas cabeças ainda precisavam desse abafo contra os seus próprios males. A pouco e pouco, o Mito havia tomado conta das nossas vidas e, por isso, subir acima da varanda da nossa casa já não era subir acima da varanda da nossa casa para ver o céu à transparência. Um véu não era um véu. O simbólico havia-se instalado com sua poderosa corte de substância entre o real e o imaginado. Só os cegos iam a Sagres e nele viam um rochedo perigoso por onde todos os navios provenientes do Mediterrâneo e do Atlântico, na rota da Europa, tinham obrigatoriamente de passar. Só os cegos. Então, felizmente, fomos a Sagres. Ainda estávamos vivos e intactos.

Fomos, fazia vento, já o disse de outros modos. Éramos adolescentes. Tudo isso aconteceu outrora, quando as estradas ainda corriam às curvas entre veigas e outeiros, amarradas aos caprichos do terreno. Fomos. Chegámos lá depois duma tarde de viagem num carro que carburava mal. A distância que nos separava era curta, mas nós achávamos que por mais que andássemos nunca chegaríamos lá. E, de súbito, ali estávamos em pé, sobre as costas dum rochedo. Uma pedra gigantesca, uma escarpa nua, onde o vento assobiava como se nos quisesse arrebatar para outra parte. E, então, à medida que os redemoinhos nos levavam os cabelos, foi simples imaginar quantos enxovais por estrear se haviam misturado com a areia, quantas quilhas, quantos mastros, quantas sepulturas abertas nas ondas, para que a distância entre continentes, ao longo dos séculos, tivesse sido transposta. Foi possível compreender como por cada príncipe sonhador que a História oferece, sempre foram necessários exércitos incontáveis de outros homens, cujos nomes só estão escritos entre os grãos de areia onde ficaram seus desejos e seus ossos. Tudo isso foi entendido, durante essa primeira visita ao rochedo.

Mas foi preciso mais tempo, sobretudo mais densidade no tempo, para que eu mesma entendesse que em Sagres, como em toda a escarpa nua que se prolonga pelo Mar, existe o aceno que leva para longe o nómada das águas. Existe o inquieto, o curioso, o móvel, o trotamundos sem destino à vista, o inqualificável. Aquele que sente, na sua carne e no seu espírito, que à medida que se vai afastando da sua casa, mais se aproxima da verdadeira morada. E assim se sabe que sempre que se fala do espírito do Príncipe, seus cálculos astronómicos e seu Mapa-múndi de Fra Mauro, sempre se terá de falar daquele outro infante múltiplo, sem retrato, que habita na sombra do seu silêncio e se chama Humanidade. Era essa a palavra que eu desejaria ver escrita em letras gigantescas nas escarpas da futura Sagres. Em volta dos seu relógio de sol desenhado no chão, cujos ponteiros não falam, Humanidade. - Todos os que partiram, ou não partiram de lá, ao longo dos séculos, mereceriam essa homenagem. Os ignorados, aqueles cuja vida anónima encontra no enrolar e desenrolar das ondas a sua única metáfora, seriam esses o seu destinatário."

Lídia Jorge, "Sagres", in Revista Atlântica de Cultura Ibero-americana, nº 1, Portimão, ICIA, 2004

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A arte da fuga: Paris é uma festa









Há cidades cuja geografia mais íntima a literatura nos convida a descobrir como viajantes imaginários sem sairmos de casa. A Paris de Baudelaire, a Lisboa de Pessoa, a Dublin de Joyce, a Praga de Kafka, a São Petersburgo de Dostoiévski, a Istambul de Pamuk ou a Buenos Aires de Borges, e tantas outras, são algumas dessas cidades que o Instituto de Cultura Ibero-Atlântica e a Contramaré - Associação Cultural de Portimão, numa organização conjunta, vos convidam visitar na Sociedade Vencedora, em deambulações literárias guiadas por João Ventura, temperadas com os sabores cozinhados por João Munhá e com a música posta a girar por Vasco Fortes. Este o convite à viagem, ainda que sedentária, mas para fora de casa, que fazemos aos nossos associados e amigos, para trocarem a "cultura de apartamento" pela "cultura de saída", e encontrarmo-nos à roda de uma grande mesa de copo e livros na mão.

E que melhor cidade para uma "saída" inaugural deste ciclo de "flâneries" literárias e gastronómicas que a Paris vibrante e festiva retratada por Ernest Hemingway, em "Paris é uma festa", com os seus cafés e recantos, ou a Paris contada por Julio Cortázar como um "Jogo da Amarelinha", ou a "Paris [que ] nunca se acaba", onde Enrique Vila-Matas imita a vida boémia de Hemingway e nos propõe uma fascinante educação literária e sentimental sobre Paris? 
Na próxima sexta-feira, 27 de Novembro, portanto, numa soirée com início às 18h00, na Sociedade Vencedora, "Paris é uma festa" para onde nos levará a primeira tertúlia do ciclo A Arte da Fuga.

Inscrições limitadas, até hoje, através dos emails: icia.geral@gmail.com e info.contramare@gmail.com
PUBLICAÇÕES

sábado, 14 de novembro de 2015

Paris pelos passos de Cortázar



















Como homenagem à cidade de Paris, ontem à noite vítima do mais vil ataque terrorista, publicamos um texto de João Ventura (originalmente publicado no seu blogue "O leitor sem qualidades"), que nos convida para uma flânerie contra o medo entre el lado de allá e el lado de acá da Rayuela, de Julio Cortázar.

Tenho andado por estes dias deambulando ao jeito de Michel Butor (L´emploi du temps) entre el lado de allá e el lado de acá da Rayuela, de Cortázar. Ou, dito de outro modo, entre Paris e Buenos Aires, cidades metafóricas que no livro vou encontrando bifurcadas uma na outra como se «en Paris todo le [fuera] Buenos Aires y viceversa», o que a mim próprio, transformado emflâneur acidental, já me foi dado confirmar, vezes sem conta, em Paris e, por uma vez, na capital porteña, levado pelos passos de Borges através da Avenida de Maio, de inspiração haussmaniana, ou vagueando pelas suas ruas no mais buenairense dos livros de Cortázar, El examen, que, sem que o autor o soubesse ao tempo em que o escreveu (1950-51), viria a ser considerado como uma espécie de embrião desta Rayuelaparisiense que começa na Pont des Arts, em Paris - onde Horacio vai em busca de Maga, não para se encontrar com uma mulher, mas em busca de uma cidade que ele confunde com uma mulher: «Yo digo que Paris es una mujer; y un poco la mujer de mi vida» – e, depois, se transfigura, a meio do romance, na ponte da Avenida San Martin, em Buenos Aires, onde o mesmo Horacio imagina Maga na figura daquela Talita noctívona que joga à rayuela no manicómio.

Mas longe de Buenos Aires é a Paris que vou regressando agora, primeiro pulando a pé coxinho através das casas deste livro labiríntico e logo, amanhã, uma vez mais, percorrendo as suas ruas como se fossem páginas escritas de um capítulo que começa na rue de Seine, passando sob o arco que dá para o Quai de Conti e dali atravessando, depois, a Pont des Arts onde, quem sabe, o acaso me conduzirá até Maga – porque «un encuentro casual es lo menos casual en nuestras vidas» – e, depois, talvez, ir por ali caminhando junto ao Sena, de bouquiniste em bouquiniste, forçando uma vez mais a casualidade, essa situação de graça tantas vezes experimentada por Cortázar e, antes dele, pelos surrealistas franceses.

Quem sabe, então, se não encontrarei Nadja, a personagem que André Breton persegue através das passages benjaminianas, «tão porteñas também» – Galerie Vivienne, Passage des Panoramas, de Jouffroy, du Caire, Galerie Sainte-Foi, de Choiseul – que anunciam uma experiência distinta da do mundo exterior. E, depois, se poderei encontrar nas ruas e praças sentimentais cujas casas verosímeis vou agora saltando no labirinto de papel da Rayuela, as mesmas que amanhã percorrerei como quem percorre as suas ruas e praças artúricas que dão para um tempo perdido em que, também para mim, Paris era, ainda, uma mulher? Rue des Lombards, Verneuil, Vaugirard, Mouffetard, Saint-Germain-des-Près, Saint-Sulpice, Contrescarpe. Ou nas comportas solitárias, alheias à depradação turística, do Canal Saint-Martin; ou no Parc de Montsouris, de conotações mágicas; ou nas ruelas do quartier de Lautréamont, a fragância amarela da Place Vendôme sob a vagarosa chuva de Outubro que amanhã – diz-me a meteorologia – cairá em Paris e me levará a refugiar-me naquela taberna que já ali não está, mas que estava naquela tarde em que Cortázar e Maga se refugiaram nela pisando a serradura espalhada no chão e aspirando o odor acre do vinho.

Fechar, então, agora, o livro e fazer a mala, porque como disse Cortázar «Mi mito de París actuó en mi favor. Me hizo escribir um libro, Rayuela, que es un poco la puesta en acción de una ciudad vista de una manera mítica [...] Uno cree conocer París, pero no hay tal; hay rincones, calles que uno podría explorar el día entero, y más aún de noche».